segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

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Eu disse uma vez que pouco importava o que o tempo faria de nós. Um dia nos cruzaríamos. Talvez num supermercado, você com teu filho, eu com o meu. E nesse instante, tudo a nossa volta perderia a importância. Seríamos só você eu mais uma vez.

Cresci assim, com essa paz. E embora nossas vidas tenham tido caminhos contrários, havia essa certeza.
E era nela que eu me agarrava.
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É que às vezes achava tanto que a gente podia ter um final feliz.
Mas talvez seja nosso destino nos encontrar e nos separar sempre.
Talvez tenha sido assim antes. Talvez seja assim agora.
O que eu sei é que te amar tem sido sempre um não alcançar...
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Queria que não houvesse porto para ancorar esse barco.
Queria ficar a deriva, em alto mar, sem medo da brevidade do instante.
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Você ainda me olha.
E eu ainda te quero.
Por isso, apesar de tudo que nos separa, sabemos que não nos desligamos.
Acontece assim, e aí eu não saro.

vou lembrando que sou mansa

Um fio de cabelo branco e um susto. Ele não estava ali ontem. E não é só um, são alguns.
Foi assim que começou o ano.
Com a consciência do tempo em sua metáfora mais delicada. Fios brancos pela primeira vez.

E continuo a mesma. Mas, de repente fica tão mais fácil ser eu.
É que nesses dias tenho achado que tudo converge, que o universo só faz é aproximar. Aos 43 anos vou lembrando que sou mansa, que valorizo um olhar, que adoro falar através de músicas, que sinto ciúmes, e que quero ficar perto, bem perto, de preferência do lado de dentro de quem amo.
Lembro que o ser humano é gregário, e que no fundo, adoro pertencer.
Do jeito bonito que consigo.

Porque mesmo que dure só um instante, agora é justo o instante que dura para sempre.

Gosto de gente assim, que sabe ser para o outro.

Gosto de quem ainda tem essa boa fé, de quem se dispõe a amar, de quem tem este bem estar interno.

Porque gostar é ter essa falta de egoísmo, essa coragem de se entregar, de oferecer, de querer o bem. Gostar é cantar, é declarar, é revelar... é ter um fogo no peito e uma brisa na cabeça...


E de pensar que eu quase já nem lembrava dessa alegria...

É que de vez em quando a gente precisa de uma música dessas ao pé do ouvido, a gente precisa de um abraço de alguém que nos diga que vamos encontrar uma maneira de sorrirmos juntos.

Quando estou assim, cabe tudo em mim...

domingo, 29 de janeiro de 2012

ensaio sobre o amor

Dos meus olhos escorregam lágrimas gordas, choro, mas sem arfar.
O pulmão é calmo, a cabeça também. É o peito que dói.
Dói esse doer tão lindo, esse querer, esse nó, esse embrolho...

Achei que sabia das coisas...
Achei que era tão vivida, que minha vida era tão cheia de histórias...
Mas, e agora ?
E agora que eu descobri que nada sei ?

Paro um instante. Quero rearranjar os pensamentos.
Você está lá, e então não organizo nada. pelo contrário, tudo sai do lugar.
E é tão lindo.
Lindo porque nem ligo para as probabilidades, porque ignoro o oceano, rio do tempo...
Lindo porque já nem sei como eu era antes.
Porque não sei explicar. Nem controlar.

O amor é esse medo.
Essa delícia.
Uma agonia febril, um rio perene, um paradoxo.
E agora acordo desafiando o impossível.

E fico tão vulnerável, como se me despisse no frio...
Sim, tem a beleza do sentir, mas tem também a pele que queima, que sangra, que dói.
Já não me protejo mais.
Não dá. Não sei.

E nem ligo.
Não ligo para mais nada.
É como disse lindamente Miguel E.C., e como fez música Chico Buarque : "é como estar doente de uma folia..."

Afinal, o amor é uma coisa, a vida é outra.

E te amo.
E é tão maior do que eu...
(solange maia )

como quando eu era menina.

Ele é um homem. Maduro.
Sou uma mulher. Madura também.

Já temos filhos, histórias, experiências.
A vida e o corpo marcados pelos caminhos percorridos.

Mas diante do susto do bem querer somos tão vulneráveis...
somos exatamente como éramos quando meninos...

O amor não contém o trêmulo da voz. Tem os olhos envergonhados, a insegurança dos bons, a sede de quem vai beijar pela primeira vez na vida...

E nem todos esses anos são capazes de mudar isso.
Amar é estar criança.
( solange maia )

do que não me serve mas.

..que as coisas têm fim e vão acabando silenciosas e delicadamente, quase sem que a gente perceba, isso eu já sei. Não é a primeira vez. Mas é que de vez em quando a gente esperava mais do que palavras educadas e vazias. É triste, eu sei, como um céu sem nuvens, de um azul tão só que chega a doer na gente. Mas passa, e logo a gente volta a sorrir.

Um sorriso discreto, mas de verdade.

Conquistado a duras penas. Porque tenho um coração enorme, e muito amor para dividir.

Mas não me venha com tolices, tem amor que não me serve mais !
(solange maia )

quando sorrir é inevitável

Sorrir é quando a gente faz poesia com a cara, é quando confessamos as alegrias da vida sem precisar de palavras, quando chegamos mais perto do coração. E, nestes dias, tenho aprendido que a falência do sorriso antecipa a da vida, que sorrisos sinceros não se soltam ao vento, que sorrir é uma atitude, e se for da gente mesmo, é ainda mais, é uma virtude.

E, vamos combinar, nada ilumina mais a vida da gente.

das vezes que volto pra mim

Deixei poucas pessoas conhecerem a mulher que me habita. Essa de verdade, cheia de imperfeições e desordens íntimas, mas que carrega mais ternura do que se pode imaginar. Eu e meus olhos atrevidos, minha fome de amor, e essa fragilidade engraçada de quem quer ser a protagonista de um sonho bom.

Não que eu quisesse um compromisso com a eternidade, mas poucos souberam do meu corpo, das minhas marcas, das manhãs de preguiça e do rosto sem maquiagem. É que preciso acreditar para me mostrar. Porque se mostro meus medos, minhas incoerências e fraquezas, e só o que consigo é uma rasteira, fico tão desabitada.

Sou uma cidade vazia.

Acho que é por isso que por muito, muito pouco, fecho a porta e volto para a minha vida.
( solange maia )

pegação

Definitivamente prá mim não dá ! Acho que não sou moderna nessas coisas de sentimento.
É claro que nem tudo precisa ser romance, mas pelamordedeus, não quero ser “peguete” de ninguém. Esse negócio de qual é o seu nome, você me beija, a gente se aperta, e depois já era, ou de quem chegar primeiro, leva, não mesmo. Meu coração não quer.

Tenho a alma esfomeada. Gosto de laços afetivos, de dias seguintes, daquela intimidade conquistada com o tempo.
Acho bonito quem tem vontade de amar. Porque não é nada fácil, eu sei...
E, tem coisa melhor do que uma pegação com desejo do corpo e também dos outros sentidos ? Com troca de olhares e aquelas palavras só nossas ?

Se não for assim, tudo bem, fico com a minha solidãozinha...
Prefiro ser fora de moda !
(solange maia )
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e voce virou abóbora

No dia seguinte você não estava lá.
Você e tuas mãos que eu desejava tanto.
Você e tantas coisas a serem ditas, mas que nunca tivemos tempo.
Você e a incrível habilidade que tem de me fazer sentir habitada.
Acho sempre que do seu lado existo mais.

Nossa história era de um querer antigo.
Tantos anos, tantos descaminhos.
E tudo o que eu achava estar perdendo por medo de que no dia seguinte você não estivesse mais lá.

E eu estava certa.
Você não estava.
( solange maia )

dói sim

Dói sim.
Afinal, equilibrava-me entre febres e frios.
Algumas coisas não podem ser mudadas. Nunca.
Dói sim. É natural.
Mas impressionava-me com a duração daquela dor.

Não eram choros sem proporção, músicas tristes e remedinhos para dormir.
Era um instante.
Desses de fechar os olhos e fazer um pequeno balanço.
Prá muita gente pode ser besteira, mas é que sou feita de alegrias.
E na dor, eu não sei...
Não sei ficar.
( solange maia )

vontade inconformada de voce

É estranho, mas meus olhos não eram famintos.
Nem medrosos, ou tampouco tímidos.
Não que eu não te desejasse, ou que não tivesse receio de que você não me quisesse, ou ainda que eu não corasse enquanto você fitava meus olhos que tudo revelam... Mas é que sempre que te vejo quero mais do que só o instante.
Então vivo com essa vontade inconformada de você.
E em cada curva dessa história tenho a impressão de que vou mais só... embora sinta que só eu sei derreter tua neve...

Acho que é por isso que te espero.
E enquanto esse tempo não chega, sigo caminhando.
Sigo porque todo amor é caminho.
( solange maia )

nenhum ruído

Prendi a respiração e fiquei em silêncio. Nenhum ruído.
Tudo calmo.
Sim, parece que lá dentro as coisas começaram a fazer sentido. E, o melhor, sem que eu precisasse me preparar para isso.

Não houve planejamento, intenção ou esforço.
Aconteceu. Foi simples, adulto, sereno.

E agora minhas manhãs já não são as mesmas. Acordo com uma alegria nova, um friozinho na barriga e um punhado de planos.
O tempo me atravessa, e pela primeira vez sinto-me alcançada. Ouço Vivaldi e tenho urgências, sobretudo uma : ser feliz.
Talvez o amor seja assim.
Porque onde quer que alcance minha visão, vejo a ti.
( solange maia )

fantasio...fantasio...fantasio

Eu te imagino tanto, e com tantos detalhes que já sei de cor os teus caminhos, conheço de ti cada pinta, cada ponto, cada canto.

Acendo velas e vejo as rendas que suas sombras desenham nas paredes do quarto enquanto finjo dormir só para poder te sonhar. Mais.

Tranço minhas pernas nas tuas, nuas, enquanto deslizo as mãos suadas por tuas costas, desenhando espirais. Fico tonta, é tanto...

Lambo, sopro, cheiro...

Quero mais, mas amanhece... e o sol pinta o quarto todo de cores claras. Claro, preciso acordar.

Preciso. Mas não quero...
( solange maia )

quem é dono de quem

De vez em quando acho que a vida é que faz as escolhas.
Embora achemos quase sempre que somos nós.
Vivemos a ilusão de que podemos ir por outra estrada, mas não será a “outra estrada” o tal caminho que já era o nosso ?
Não sei...

De qualquer forma gosto do que sei que posso modificar. E, se posso acordar uma pessoa melhor, aumentar meu sorriso, enternecer meu olhar, melhorar minhas ausências, e clarear o que de mim é vago, posso então escolher o que fazer com o que vida me dá.
O que já está de bom tamanho.
O que já me põe na estrada outra vez...
( solange maia )

do que alterna em mim

Alterno entre o encantamento e o desejo.
É que não sei fazer poesia quando faço amor.
E o que eram linhas lindas falando da tua imensidão, agora são só rabiscos.

Sinto como se teus braços circundassem minhas pernas, e perco o equilíbrio.
Agora o corpo já não me comporta, tonto, entre tantas febres e frios.
O coração bate forte, mergulhado na esperança de dias infinitos de você. E me engana.
Do nada volta a bater manso, como se dissesse o teu nome.

Alterno entre o acolhimento e a lascívia.
É que nas vezes em que passa tuas mãos entre minhas coxas,
derreto o verbo e o que era tão consistente se desfaz.
É... minhas palavras dissolvem diante de ti...

( solange maia )

pra voce minha filha

Quero que saiba sobre o amor, filha.
E saiba não só por ter me ouvido falar. Quero que o perceba, que apure sua alma, que ele esteja em nossas conversas, no nosso silêncio, no entorno, ao redor... no ar que você respira, e nos horizontes que você vê.

Porque quando de verdade, o amor escapa pelos olhos.
E nos dá a chance de um recomeço, sempre, a despeito de nossas escolhas enviesadas.
O amor é assim: aliado da coragem.
Duplica, triplica, e só faz aumentar a vida da gente...

ainda vou te amar.

Escorrego as mãos por mim, percorrendo os caminhos que suponho que vá trilhar. Deslizo-as no sentido contrário aos pêlos, é assim que arrepio. E falta-me o ar... falta-me desde o baixo ventre. Experimento meu corpo, toco suavemente a pele, fico mais densa, me liquefaço... Tento imaginar se é assim que caminharias por mim.

Sinto tremer as pernas e fecho os olhos. É como se assim eu pudesse te trazer para perto, mais ainda... para dentro.
Como se eu pudesse sentir a proximidade dos teus olhos, da tua boca, da tua pele.
E quando teu corpo inteiro estivesse em mim, lá dentro veria acender um candeeiro anunciando que amo todas as tuas delicadezas... mas que naquele instante queria mesmo era o peso das tuas mãos em mim. Firme e viril.

É que preciso.
Porque depois do sexo, ainda vou te amar.
Porque depois do sexo, sei que vou te desejar outra vez...
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

a gente só queria um amor.

Deus sabe que o que eu quis sempre foi amor.
Que só precisava de um hálito quente e braços macios. De colo e chocolate. E presença, daquelas que não deixam a desejar, completas.
Eu só queria era escrever coisas e enviar a alguém, mesmo que para morrer de arrependimento logo depois.
E me expor, até o último fio de cabelo, em nome dessa minha parte tão sensível que cisma em amar  com tanta urgência.
Ele sabe, sabe que eu sou bem mais que esses fios de cabelo amarelados e que não escolheria escrever se pudesse sentir diretamente. Mas não. Eu ainda não aprendi a sentir sem etapas, num gole só.
 Sempre soube disfarçar, que é para não machucar muito. Mas por trás desse meu silêncio há um canto desesperado, uma fraqueza que esse ar frio não deixa ninguém ouvir. Porque isso congela tudo, por fora e por dentro.
Mas tudo o que eu queria era mãos dadas. Alguém que soubesse ser. Que me fizesse gostar disso. Me deixasse bamba. Com flores em Agosto e sorrisos de presente. Além de um Setembro mais doce e aquela falta de ar. Sem vergonha nenhuma, mas com vontade. Com uma vontade imensa de beber, comer, pensar amor.  Sabendo que amor é amor e chega de conversa.
O que eu queria era um natal com muito vermelho e a esperança de uma coisa boa acontecer.
Tudo o que eu quis, Deus sabe, sempre foi amor.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ana Jácomo

Há saudades que caminham comigo aconchegadas num lugar gostoso que a memória tem. Sei que estão lá, mesmo quando demoro um bocado de tempo para apreciar as histórias que me contam. São porta-jóias que guardam encantos que não morrem. Caixinhas de música, que, ao serem abertas, derramam melodias que me fazem dançar com elas de novo. São saudades capazes de amenizar o frio de alguns instantes com os seus braços de sol.

Mas existem também saudades que pousam no meu coração de vez em quando e ficam de lá me olhando com aquele olho comprido do quer escuta. Não falam de lugares, pessoas ou épocas da minha vida. São espelhos que não refletem feições conhecidas. São saudades que entornam perfumes que somente a alma reconhece. Que sobrevoam regiões por onde apenas as emoções caminham. Que destampam ausências que a gente algumas vezes prefere ignorar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Talvez eu tenha mesmo uma visão equivocada a respeito dos sentimentos. Já que não faço a mínima questão de ter alguém morrendo de amores por mim. O que eu quero mesmo, é alguém que viva de amores por mim.

Dor? Ah não dor. Não bate na porta da minha casa hoje. Nem do meu quarto porque é tudo tão pequeno, tem coisas coloridas lá, não te cabe e nem combina. Não bate na porta do banheiro, detesto chorar na hora do banho, sair com a cara toda inchada. Não bate na minha cara, preciso sair esta noite bem bonita. Não me bate aqui no peito não, meu coração já está todo torto usando muletas, faixas e algodão. Não dorzinha, vai dar uma voltinha, vai lá ver se eu to na esquina, vai.

Não fui feita de buracos. Não existe garagens em meu peito, esperando alguma coisa estacionar. Ninguém me entra por que há necessidade. Nunca há. Não sou casa para alugar. Não preciso de ninguém para viver, mas para que a vida tenha algum sentido. Para que as horas não signifiquem apenas morrer um pouco mais.
Em mim não há comportas com hora certa para abrir ou fechar. Não há escolhas ou qualquer coisa racional. Os amores me chegam sem aviso, se estendem e acabam por ficar, meu peito deve ser confortável para abrigá-los, por isso eles se acumulam em mim. Não me sinto um coração vadio. Sorte a minha, tê-lo tão obeso, não obsoleto e sem um medo qualquer de amar.

Não era qualquer coisa que iria endireitar meu espírito. Nem qualquer sacanagem que me encantaria. Ou qualquer meio beijo que me faria ficar. Eu precisava de outras coisas pra topar fechar os olhos e pular no abismo de alguém. Precisava de céu que significasse mais do que um azul infinito, precisava entender porque eu queria tanto ver o mar. E precisava de alguém que não quisesse fazer meu coração em picadinhos pra caber no próprio peito, e aceitasse ele inteiro, gigante.

Eu sei que sonhar com o encontro dos nossos cílios e do calor da ponta dos nossos dedos, é sonhar. Mas, ter no peito esta esperança bonita esteve me livrando de constantes pesadelos. Eu repetia seu nome separando as sílabas pra que a felicidade durasse mais um pouco. E gostava de dizer – obrigada – porque você foi presente bonito que findou a vertigem me transformando em pássaro no meio do nada.

Você fala comigo e o mundo vira qualquer outra coisa que não faz a menor diferença. Não há calor, não há frio, não há vontade qualquer de me alimentar que não seja das tuas coisas. Eu queria ser você. E ter teus olhos profundos e a tua risada exagerada. Porque todo mundo te adora e adora o jeito que só você tem de sorrir. E eu fico morrendo de orgulho repetindo que você é meu e ninguém sabe, nem mesmo você sabe. Eu sei.

envelhecer

Nunca tive medo de envelhecer. De ver as mãos enrugar em sabedoria. Dos cabelos ficarem brancos como as nuvens que embelezam o céu. Nunca tive medo das pernas não terem força depois de ter corrido tanto por uma longa vida feliz. Nem da visão ficar turva pra guardar apenas na memória a beleza das flores. Envelhecer, pra mim, é presente de Deus.
Meu medo é de dormir no amor, e vê-lo amanhecer velho. Da paixão esquentar o sangue durante à noite, e amanhecer velha. Medo da esquizofrenia das palavras envelhecidas em mim e nas pessoas. Medo de que a minha esperança sofra do mal de Alzheimer, e se perca por aí. Medo do coração enrugar de propósito, pela resistência ao amor, à generosidade, à afetividade e a fé. Minha maior tristeza é de ver envelhecer em mim vontade de ser constantemente melhor para àqueles que merecem que eu seja. De não reconhecer minha felicidade no espelho. Que meu respeito e amor próprio precisem de muletas, de óculos de grau e de cuidados especiais de enfermeiros.
Tenho medo de ver envelhecer em mim a coragem de cumprir meus objetivos. De que esta mesma coragem permita que fios de cabelos brancos seja uma desculpa para não sair mais de casa. Medo de que a minha alegria perca a visão aos poucos, de que a minha imaginação sofra de Parkinson, e assim, trêmula, desista de existir.
Tenho medo da velhice da educação e do respeito entre as pessoas. De que estas coisas fiquem preguiçosas e não queiram se manifestar.
Mas, envelhecer com o tempo entregue por Deus, não temo. Quero ver os filhos dos meus filhos brincando com a minha lentidão nas pernas e com minhas gargalhadas tranqüilas. E, que o mesmo tempo que vier me tirar as cores dos cabelos e a firmeza nas palavras, não me impeça ser sempre uma criança na alma.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

estou fora de moda

Acho que perdi o jeito. Estou fora de moda.

Entendia mais o mundo quando namorar vinha depois daquele período doce chamado conquista. A atmosfera era de encantamento e os lábios tão cheios de beijos. A gente falava macio e se experimentava no outro, com delicadeza... mordíamos os lábios entre a timidez e o desejo... e sabíamos nos derreter no olhar do outro.
É claro que tínhamos mãos sacanas, a pele quente e um mundo inteiro de vertigens. Mas era mais do que só tesão e sexo seguro.

Hoje o mundo aí fora é tão cheio de poses e efeitos. Um encurtamento do prazer, um esforço para “causar”, uma pressa sei lá do quê...
Devo mesmo estar fora de moda.
É que gostava tanto de quando não éramos tão descartáveis...

de gente perfeitinha,já deu

Ontem alguém me perguntou o que eu busco.
Ser feliz - foi o que eu disse.
Mas quero dessas felicidades livres, sem a rigidez dos estereótipos, aquela de sorriso largo, de alma boa, de discurso franco.
Sou avessa às formalidades.

Quero gente de verdade, descomplicada, com aquela normalidade quase esquecida, com medos e imperfeições, mas também com sonhos e arrojos, e que desafiem a matemática das aparências.
Porque de gente perfeitinha, já deu.

E assim como Manoel de Barros, acho que a maior riqueza do homem é sua incompletude...

chão de terra batida.

Sei que em Portugal, houve um tempo em que as pessoas faziam suas próprias casas, e, quando acabavam de construí-las, antes de começarem a habitá-la, convidavam os parentes e vizinhos para uma festa. Um baile com muita música e dança.
O propósito dessa festa era que os pés dos dançarinos compactassem bem o chão.
Não canso de pensar na beleza dessa tradição.
Certamente as casas ficavam benfazejamente contagiadas.
Imagine só : uma casa dançada !

á deriva.

Queria ter te conhecido em outro tempo, talvez quando eu nem percebesse os labirintos do querer.
É que um pedacinho teu, conta uma história inteira.
E essa história tem me esgotado, porque queria ver em você um cais, mas não, você é navio no mar.
À deriva.
E se fico na margem, perco você.
Se me jogo na água, desgarro também.
Cansei de ver tudo afogar.
Queria ter te conhecido antes, quando eu ainda tinha fôlego.

É que tem doído em mim esse tanto de horas longas quando você não vem. E, de qualquer maneira, não quero mais.

diante da dor.

Perder sempre dói.
Mas tenho aprendido que é dentro da gente que encontramos o acalanto para essas horas, na sombra da vegetação interna, é nela que nos agarramos.
Se por dentro formos resumidos, não há onde se amparar.
É por isso que, diante da dor, a gente vê nascer força tão grande em pessoas que pareciam tão frágeis. Porque têm floresta imensa por dentro.
E quando providos assim, perder, de alguma forma,

vira ganhar.

de quando a gente ve o tempo passar.

Estou mais velha.
Minha pele já não é mais a mesma, nada é tão firme... mas, em contrapartida, acho que fiquei mais macia, menos rígida, meu lado de fora mais parecido com meu lado de dentro. Tenho texturas mais delicadas, embora eu seja hoje tão mais consistente.
Os anos me tornaram mais tolerante, menos pretensiosa, mais feminina...
E... sem aquela velha “sensação de poder” tenho me percebido tão mais a vontade !

de quando viro mel.

Você, com sua delicadeza extremada, vai me desconstruindo, tirando de mim as camadas ácidas, me esvaziando das verdades que nem existem, me fazendo ser mel. E nem vê a desordem que há em mim, ou, talvez nem se importe...

Só sei que volto a ficar parecida comigo, que ando as voltas com imensos e sinceros sorrisos.
Viro minha definição mais próxima da verdade.

E é exatamente por isso que te amo.
Você me SIMPLIFICA.

Então, por favor, não se desfaça de mim...

O amor quer ser acolhido.
Finalmente reconheço.
Mas a coisa não é tão fácil assim.

O amor faz fila dentro da gente, querendo ser sentido, mas a gente disfarça, muda o foco, pula essa parte... porque amar nos torna absurdamente vulneráveis, e pode ser um erro se não for correspondido, e durar pouco e deixar a gente arrebentada depois, pode ser só tesão disfarçado, desse que quebra fácil, ou pode ser uma invenção bonita da nossa cabeça...
O fato é que a gente racionaliza o amor.
E assim ele dificilmente acontece.
Tão obvio e tão dubitável.

Porque o amor precisa de abrigo.
Quer ser protegido.
Começo o ano, então, com uma premissa :
O amor precisa de um crédito.

um conto que te conta. . .

Quando pequena, a menina morava no sertão. Ela, e oito irmãos. Uma miséria. O pai era tocador de gado, e passou os dias levando-os de um pasto a outro. Na verdade passou os anos, passou a vida. Mas criou seus filhos.
E bonito não era só isso. Bonito era o que o pai fazia quando voltava para casa, toda noite, num ritual sagrado. Saltava do cavalo fazendo poeira, atrelava-o à cerca ao lado do alpendre, sujo e cansado, e assoviava forte até que as crianças viessem todas. Só depois de conferir os nove, tirava a capa dos ombros, que o protegia do sol, e a rodava com as mãos, jogando-a sobre o chão de terra batida em frente à pequena casa de pau-a-pique, num gesto mágico. A capa, misteriosamente, caia sempre aberta, e as crianças amontoavam-se nela, sentadas bem próximas umas das outras. Era o instante que fazia valer os dias. O pai começava então a contar histórias...
Contava sobre o cangaço, sobre o coro de anjos que os vaqueiros ouviam em dias sem lua, sobre o caipora, sobre a terra, sobre seus acontecimentos...

A menina nunca se esqueceu daqueles momentos.
E as histórias passaram a morar nela.
Muito tempo passou.
Sem a capa e sem o sertão, sem saber das letras ou das poesias, a menina começou a contar a vida, e era tanta, e com tanta riqueza, que melhorava toda gente que a ouvia.

E, curiosamente, ela estava ali... ao meu lado, sentada no chão de um teatro fazendo um curso para aprender a ser uma Contadora de Histórias.
Mas, como ensinar a alguém o ofício que já exercia, e tão divinamente ? Como ?
Talvez contando um conto em que ela fosse contada.
Mas só talvez.

 
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