terça-feira, 10 de janeiro de 2012

um conto que te conta. . .

Quando pequena, a menina morava no sertão. Ela, e oito irmãos. Uma miséria. O pai era tocador de gado, e passou os dias levando-os de um pasto a outro. Na verdade passou os anos, passou a vida. Mas criou seus filhos.
E bonito não era só isso. Bonito era o que o pai fazia quando voltava para casa, toda noite, num ritual sagrado. Saltava do cavalo fazendo poeira, atrelava-o à cerca ao lado do alpendre, sujo e cansado, e assoviava forte até que as crianças viessem todas. Só depois de conferir os nove, tirava a capa dos ombros, que o protegia do sol, e a rodava com as mãos, jogando-a sobre o chão de terra batida em frente à pequena casa de pau-a-pique, num gesto mágico. A capa, misteriosamente, caia sempre aberta, e as crianças amontoavam-se nela, sentadas bem próximas umas das outras. Era o instante que fazia valer os dias. O pai começava então a contar histórias...
Contava sobre o cangaço, sobre o coro de anjos que os vaqueiros ouviam em dias sem lua, sobre o caipora, sobre a terra, sobre seus acontecimentos...

A menina nunca se esqueceu daqueles momentos.
E as histórias passaram a morar nela.
Muito tempo passou.
Sem a capa e sem o sertão, sem saber das letras ou das poesias, a menina começou a contar a vida, e era tanta, e com tanta riqueza, que melhorava toda gente que a ouvia.

E, curiosamente, ela estava ali... ao meu lado, sentada no chão de um teatro fazendo um curso para aprender a ser uma Contadora de Histórias.
Mas, como ensinar a alguém o ofício que já exercia, e tão divinamente ? Como ?
Talvez contando um conto em que ela fosse contada.
Mas só talvez.

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