terça-feira, 6 de outubro de 2015

A dor da separação - quando o amor acaba.
Quem nunca se separou, talvez não compreenda o que vou dizer.Separar-se é um ato de coragem. Ninguém casa pensando em se separar, mas muita gente que se separa pensará duas vezes antes de casar de novo por medo de enfrentar outra vez a dor de uma separação. Chegamos ao mundo e nosso primeiro grande ato de vida, o nascimento, é marcado pelo choque da separação. Partimos da vida embalados pela mesma força de ruptura.
Não quero falar aqui do que vem depois da separação, nem do quanto ela é necessária para que possamos continuar vivendo. Separa-se assim como na hora do parto é, muitas vezes, o movimento necessário para que possamos encontrar um novo fôlego de vida. Muitos dos que não ousam, secam, perecem em vidas estéreis e mornas, um tipo de morte em vida.A separação, em alguns casos,pode ser até um alívio, mas nem por isso é menos dolorosa. Mas hoje não vou falar de alívio ou do que vem depois, de todos os benefícios da mudança, da necessidade de deixar o que já não pulsa para trás. Hoje não vou dizer que tudo passa, na certeza que tenho que sim, cedo ou tarde tudo passa. Hoje quero falar da ruptura, do despedaçamento que antecede o 'começar de novo'.
Separa-se é a reestruturação completa da imagem que fazemos de nós mesmo, é a construção de uma nova identidade a partir dos estilhaços deixados pela casa vazia após a partida do outro. É cortar a própria carne e reaprender a viver. Abandonar o conhecido, seguro, habitual, trilhar novos caminhos. É pensar a si mesmo no mundo através de uma nova perspetiva.
Separação é a perda de referências, mudança de rota, de rumo de vida. É abrir mão do conforto das certezas, de tudo o que foi planejado. Separar-se é reescrever o roteiro,mudar de rotina, fazer novos caminhos. É esvaziar o carrinho do supermercado e não levar pra casa mais os produtos que antes o outro gostava, é perceber comida sobrando, diminuir a quantidade. É frequentar outros lugares, novos lugares para não esbarrar em lembranças. Abrir mão de amigos de casal, é deixar de ser casal e descobrir quantos amigos de verdade você tem afinal. É perceber que depois do fim, mesmo com a cama vazia, você ainda dorme no lado de sempre. É esvaziar o guarda roupa e descobrir que o vazio é de outra ordem.
Separa-se é suportar ser desamado, esquecido, deixado para trás. É perder o lugar de referência, deixar de fazer parte da família do outro.É carregar o peso dos erros tentando transformá-los mais tarde em experiência. É esperar o tempo certo para abrir o baú de lembranças e rever os bons momentos. Separar-se é abandonar a aposta, abrir mão de planos futuros, suportar a morte dos sonhos.
Separação se dá nos detalhes. Reconstrução diária de uma vida deixada para trás. É passar pela experiência da dor e do desamparo para poder realmente começar outra vez. Atravessar a experiência do luto conscientes da dor nos faz mais fortes para seguirmos em frente sem pesos, culpas ou fantasmas demasiados.
Os dias de sol virão certamente, pois assim como o amor é uma experiência transformadora, a separação também o é. Mas diferente do amor, a separação precisa ser atravessada sozinha e por isso se torna tão reveladora de sentido no nosso processo de autoconhecimento. A separação é um enfrentamento pessoal, um confronto diante do espelho, um teste de forças, ato de coragem e honestidade consigo mesmo.Separar-se por mais doloroso que seja, é um gesto de vida, reencontro e descoberta com o que é afinal verdadeiro e essencial em nós.
Andréa Beheregaray.

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