"Minha mãe me deu um rio.
Era dia do meu aniversário e ela não sabia o que me presentear.
Fazia tempo que o mascate não passava naquele lugar esquecido....
Se o mascate passasse a minha mãe compraria alguma rapadura
ou bolachinhas para me presentear.
Mas, como não passava o mascate, minha mãe me deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de nossa casa.
Eu estimei o presente mais do que fosse uma rapadura do mascate.
Meu irmão ficou sentido porque ele gostava do rio igual aos outros.
A mãe prometeu que no aniversário do meu irmão ela iria dar uma
árvore para ele.
Uma árvore que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera para meu irmão.
E achei legal.
Os pássaros ficariam durante o dia nas margens do meu rio,
e à noite eles iriam dormir na árvore do meu irmão.
Meu irmão me provocava assim: minha árvore
dava flores lindas em setembro
e o seu rio nunca dá flores.
Mas eu gozava que a árvore dele não dava peixes.
E na verdade o que nos unia de verdade eram
os banhos no rio nus entre pássaros!
Nesse ponto a nossa vida era um afago."
(Manoel de Barros)
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Assinar:
Postar comentários (Atom)



0 comentários:
Postar um comentário