quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Seis da tarde é a hora da ausência, da saudade, do medo.
É a hora do vazio que fica pela imenso desejo do reencontro com o criador “ao cair da tarde” (obrigado, Rubem Alves!), é a hora do desespero silente, da nostalgia esmagadora, do encon...tro que já não acontece mais...
O pôr-do-sol me desnuda, me coloca só... sinto falta, sinto A falta, aquela que, ao encontrar, minha alma descansa tranqüila.
Mas vem também o medo... o fim da tarde anuncia a noite, e a noite, recheada pela ausência do encontro não realizado, traz a angústia, o pavor... daí justificam-se todas as rezas e orações feitas nesse horário... é o medo da solidão.
A noite é símbolo da morte, talvez por isso o “rogai por nós, agora e na hora da nossa morte” seja a oração a ser feita ao entardecer por aqueles que tem medo de morrer...
Hoje entendo porque o próprio criador se encontrava com o homem um pouquinho antes do anoitecer: pra que sua presença fosse sentida durante a noite.. . e o medo fosse embora... e ele dormisse tranqüilo.
Não foi à toa que um poeta, repleto dessa certeza escreveu que em paz ele se deitaria e dormiria... o poeta tinha a certeza da presença!
E é aí que brota a diferença... quem tem medo, faz a oração; quem tem a certeza da presença, mesmo ausente, faz poesia.
A poesia nasce da saudade, da ausência-presente, da certeza de que mesmo não visível, há algo de belo na noite... e isso só faz sentido quando o pôr-do-sol não é mais o prenúncio do abandono, mas a ausência tornada em poesia. É por isso que a noite é dos poetas e dos cantadores... eles nunca estão abandonados, mesmo quando solitários.
No coração do poeta há sempre o reencontro com a beleza, com o Criador, com as cores que ele, como pintor de palavras, transforma em versos...
O poeta não teme a morte que a noite traz... o poeta crê na ressurreição, por isso a noite não lhe mete medo, mas lhe inspira... por isso à noite é que os casais se enamoram ao luar... o amor dos namorados é o anúncio de que a vida sempre recomeça após a morte... é a ressurreição de tudo!
Não foi à toa que Nietzsche disse que “só onde há túmulos é que pode haver ressurreição”... é na ausência que nasce a saudade, e é na saudade que brota a poesia.
A saudade da vida que o dia muitas vezes apaga, mas que a noite traz com toda a força... é por isso que os jovens casais se encantam com a lua... ela reflete a luz perdida, do dia que foi embora... a lua é envolta no mistério...
E só há poesia onde há o mistério...
Já faz tempo que troquei a oração pela poesia... porque é nela que me reencontro com o Criador. É na poesia que, em mim, o verbo se faz carne... e o mistério se faz revelação!

José Barbosa Junior

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