Talvez nunca mais se cruzem. Talvez ela mude de emprego,
alugue um apartamento novo de frente para um pracinha com uma única
árvore, comece a acordar às cinco da manhã, passe o café enquanto
procura um par de meias, venda o carro, comece a pegar duas lotações
para chegar no novo emprego, ache até bonito o uniforme, quem sabe canse
no fim do dia, chegue atrasada no ponto de ônibus, não tenha o dinheiro
para o táxi. Ele deve ter escolhido ficar em São Paulo, ou no Rio de
Janeiro ou em Brasília, não importa aonde ele tenha ficado, talvez ele
queira ganhar muito dinheiro, comprar um flat de frente para o mar,
viajar para Dubai no próximo feriado, comprar um carro novo, pedir para
alguém fazer seu café, ter uma sala só para ele no andar mais alto do
prédio, sapatos de couro, meias bem alinhadas, talvez ele preferisse
ternos mais claros, um cartão com limite mais alto. Eles não souberam
quando começaram ou terminaram, se por algum momento a mágica do “nós”
chegou a acontecer, se podia ser amor ter vontade de dividir uma pizza.
Talvez ela quisesse somente uma companhia, alguém para chamar de “amor”,
um par de meias novas no Natal e passear na pracinha que tem apenas uma
árvore. Ele quis um apartamento maior, a estabilidade que pode ser
superficialmente alcançada, um salário mais proveitoso. Nunca disseram
adeus, nem até mais, nem qualquer outra coisa que desse possibilidade de
um fim ou de um próximo encontro; terminavam as conversas com beijos,
quando mais frios com abraços. Talvez ele a ame. Talvez ela quisesse
saber disso. Por causa da mudez das emoções que sentiam, eles não sabiam
que destino davam a si. O bonito deles é a coisa mais simples em suas
histórias: de alguma forma silenciosa e cheia de esperança, eles
esperavam um pelo outro, embora nenhum pedido tenha sido feito.
Cáh Morandi
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