O amor seria somente
mais uma palavra. Uma palavra como outra qualquer: cadeira, livros,
horizonte ou paralelepípedo. Uma palavra perdida em um dicionário. Uma
palavra imprecisa em uma canção. Uma palavra escrita numa placa no
deserto. O amor poderia ser o deserto ou a canção, porque às vezes, nos
dá uma espécie de sede, em outras, um carinho ao pé do ouvido.
Quem
sabe o amor passasse despercebido, em silêncio, tão em calmaria que nem
distraísse minha atenção das outras coisas bobas do mundo. Quem sabe o
amor chegaria, como chegam correspondências de promoções, que a gente
amassa e joga fora. Quem sabe o amor viesse como uma rosa entre as
outras rosas em buquê, e olhando de cima, é tudo tão igual. Quem sabe
fosse uma rua desconhecida, um creme para as mãos, um jeito de sorrir ou
olhar, uma mania, um prato árabe, uma pizza, um peixe que vive só no
Mar Egeu, uma marca de xampu ou de relógio, um sabor de suco, uma fruta.
Embora para tudo, seja todo o sentido.
Poderia
sim ser quase nada, se não tivesse sido tudo. Poderia não ter
significância ou significado, senão fosse você. Senão fosse seu riso me
chamando para dançar no meio do mundo, senão fosse seu nome se espalhar
por todos os cantos dos meus pensamentos e os poros da minha pele, senão
fosse o seu olhar na primeira vez que te vi, senão fosse seu ar de
segurança, senão fosse sua simplicidade em falar. Se por um momento só,
você não tivesse sido tão profundo. Se por um momento só, não tivesse
sido você, teria sido tudo inútil, teria sido tão em vão.
O
amor vem depois de você, e as palavras vem depois do amor. Tão clichê,
tão bobo, quando a gente quer dizer que está apaixonada e sente tão
amada a ponto de esquecer o resto do mundo. Tão tola nossa forma mais
planejada para não ser amarrada pela paixão. Não vale nada toda razão
quando o coração desperta.
O amor seria sim como qualquer palavra... se não fosse sua chegada.
Cáh Morandi



0 comentários:
Postar um comentário