sábado, 1 de outubro de 2011

Há em mim agulhas afiadas que estouram qualquer promessa, principalmente as que vêm dos olhos aparentemente mais profundos e verdadeiros e das bocas mais, supostamente, sinceras.Há pedaços de vidro quebrado e arame farpado por toda a minha superfície, evitando que hajam mais trilhas, que levam à lugar nenhum, grudadas à ela. Há uma imensidade de sentimentos aprazíveis colados aos restos pingados de um líquido salgado, esquecido no canto esquerdo do peito.E lá,bem lá, na caixinha culpada pelas burrices que dizemos e fazemos, por nossas caras de bobos e por  nossa maneira comovente de depender dos outros, há uma placa escrita sobre o metal dizendo: " Se não fores capaz de sentir, por favor, não ultrapasses o limite."

menina bordada de flor.

Lembra que jurei pagar com rigor todas aquelas palavras falidas que esparramei nos espaços amarelados daquela folha recheada de adornos?
Já chegou a hora de falar sobre aquelas respostas silenciosas que finalizavam nossas conversas.
Eu ainda equilibro o olhar e o direciono para um ponto distante, do lado de fora da nossa moldura. Mas não é por medo de olhar nos seus olhos, não. É medo de encontrar algo neles, ou de não encontrar.
Às vezes no fim da tarde eu ainda corro para a calçada e fico esperando você aparecer por lá e me dizer, sem jeito, que estava passando por alí e resolveu me dar um oi. E quando o frio bate assim tão forte, eu me sinto congelando, e esse gelo todo desmancha aos poucos e vai fluindo pelos olhos e escorregando pelo rosto. Então sinto você tocando meu rosto com teus dedos gelados e eu me abraço, tranquila, pensando em como aos poucos me tornei tão sensível.
Convidei, um dia desses, o vento para um passeio, e saímos os dois de mãos dadas pelas ruas. Percebi que ando cheia de passados guardados no bolso e lembrei dos trechos que ainda estavam por vir. Eles enfim vieram, e acompanhados.
Continuo rindo das piadas sem graça que a menina loira me conta com um sorriso enorme estampado no rosto e não consigo tomar chá de canela sem lembrar de você.
De vez em quando ainda vou visitar o moço do semblante constantemente bem humorado só para ouví-lo me chamando de moça ( com aquele jeito bonito dele.)
Mas o moço não tem o seu sorriso torto, nem sua cara de espanto forjada, nem seu talento especial de imitar meu jeito de falar. O moço me arranca um sorriso mas não arranca suspiro.
Quase não me encontro nesse emaranhado de ideias tortas que regem nossas vidas e suas pontuações. Fica tudo ziguezagueando entre uma lágrima e um sorriso. Tudo formando aquela mesma palavrinha de três letras.
E eu ando sentindo tanta falta de algo que não seja vulgarizado, plastificado, enlatado, light.
Eu quero, cara, quero agora, já. Entende?
É verdade, tudo isso é controle remoído. Todas essas palavras são os frutos dos nossos antigos textos. Tudo frutifica. Por isso te digo que ainda aceito momentos reciclados e não tenho problemas com palavras brotadas em solos antigos.
Então deixa eu ver beleza nisso, moço, deixa eu me pintar e me sujar com as tuas cores. Deixa logo, antes que as coisas sequem, antes que os espaços em branco sejam pintados e antes que o vento me leve para longe, tão longe, muito longe.

 
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